Renascimento1518
Assunção da Virgem
Tiziano
O olhar do curador
"Situada no altar-mor da Basílica de Frari, em Veneza, esta obra de quase sete metros de altura rompe com a tradição estática, ligando o mundo terrestre ao divino através de um vermelho vibrante."
Obra-prima absoluta do Renascimento veneziano, esta tela monumental revolucionou a pintura de altar pelo seu dinamismo e uso exuberante da cor. Marca a apoteose de Ticiano.
Análise
A Assunção da Virgem de Ticiano representa um momento de rutura definitiva com as convenções pictóricas do início do século XVI. Instalada em 1518, provocou uma onda de choque em Veneza: os contemporâneos ficaram impressionados com a escala colossal das figuras e a violência expressiva do movimento. Ticiano abandona a clareza serena do seu mestre Bellini para abraçar um estilo dramático, qualificado como "terribilità", que prefigura o barroco.
No centro desta tempestade de luz, a Virgem Maria eleva-se, carregada por uma nuvem de anjos. O seu corpo, tenso em direção ao céu, já não possui a fragilidade etérea das Virgens anteriores; ela é uma mulher de carne e alma, poderosa e transcendida. Ticiano utiliza o "colorito" veneziano para saturar o espaço de nuances quentes, onde os vermelhos venezianos ressoam com o ouro deslumbrante da esfera divina. Esta mestria da cor torna-se o motor emocional.
O nível inferior do quadro ancora a cena numa humanidade vibrante. Os apóstolos, representados com escorços audazes e gestos de estupor, testemunham a incredulidade humana perante o milagre. Os seus braços levantados e os seus rostos voltados para cima criam uma ligação física entre a terra e o céu. Ticiano explora a psicologia das massas e a reação humana perante o sagrado, conferindo a cada apóstolo uma identidade visual e emocional forte.
Finalmente, a obra é inseparável do seu contexto arquitetónico. Concebida para ser vista através do arco do coro da Basílica dei Frari, domina o espaço pelo seu tamanho e clareza. A luz natural da igreja parece fundir-se com a luz pintada da mandorla, apagando o limite entre o real e o sagrado. É um triunfo da pintura como arte total, capaz de modificar a perceção do espaço e impor uma visão teológica pela potência da forma.
A inauguração do quadro em 1518 não foi um sucesso imediato para todos. Os monges franciscanos ficaram inicialmente aterrorizados com a força dos apóstolos, que julgaram demasiado massivos e pouco devotos. Foi necessária a intervenção do embaixador do Imperador Carlos V, que ofereceu comprar a obra imediatamente caso não a quisessem, para que os monges compreendessem que possuíam uma obra-prima inestimável. Este relato sublinha o carácter vanguardista de Ticiano.
Um segredo reside no rosto da Virgem. Contrariamente à tradição, Ticiano pinta uma Maria cujo olhar é direto e traços expressivos. Estudos recentes sugerem que procurou capturar o movimento da alma. A torção do corpo é tecnicamente inspirada no grupo de Laocoonte, descoberto recentemente em Roma, provando que Ticiano seguia de perto as descobertas da escultura antiga e as inovações de Miguel Ângelo.
A cor vermelha utilizada para as vestes da Virgem e dos apóstolos é estratégica. Ticiano utilizou um pigmento raro para criar um triângulo visual que liga a parte inferior e média do quadro. Este vermelho guia o olho numa ascensão contínua, um segredo de composição que obriga o olhar a subir sem parar. A luz dourada no topo não é folha de ouro, mas uma sobreposição complexa de vernizes amarelos e laranjas.
Outro segredo diz respeito à figura de Deus Pai no topo. É representado não como uma figura estática, mas como um espírito acolhedor, quase em movimento em direção à sua filha. Esta humanização do divino foi audaz para a época. Além disso, Ticiano exagerou voluntariamente o tamanho das mãos e pés dos apóstolos para que fossem legíveis de longe, uma antecipação genial da perspetiva "di sotto in sù".
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