Classicismo1648
O Funeral de Fócio
Nicolas Poussin
O olhar do curador
"O contraste é marcante entre a cidade de Atenas, majestosa e banhada de luz ao fundo, e a solidão dos dois portadores que transportam o corpo de Fócio na sombra do primeiro plano."
Manifesto da paisagem clássica, esta obra sublima o sacrifício de um justo injustamente condenado pela sua pátria. Poussin orquestra uma harmonia soberana entre a tragédia humana e a natureza ordenada.
Análise
Inspirada nas "Vidas Paralelas" de Plutarco, a obra relata o fim trágico de Fócio, general ateniense do século IV a.C., reputado pela sua virtude. Acusado injustamente de traição, foi condenado a beber cicuta. Como a lei proibia o seu enterro em solo ateniense, o seu corpo foi levado para fora da cidade por dois servos para ser queimado em Mégara. Poussin escolhe este momento de exílio póstumo para ilustrar a ingratidão dos homens, transformando a paisagem num santuário moral.
A cidade grega, representada com rigor arqueológico imaginário, encarna a ordem social da qual Fócio foi banido. Os templos e edifícios celebram a glória de uma civilização que acaba de cometer um crime judicial. Esta tensão entre a beleza da arquitetura e a injustiça do ato humano é o cerne da reflexão de Poussin sobre a fragilidade das instituições e a constância da virtude individual.
A paisagem não é um simples cenário, mas uma extensão do pensamento filosófico do artista. A natureza aqui é "heroica", estruturada e racional, refletindo a ordem divina. Cada árvore e cada rocha são colocadas com uma intenção deliberada para guiar a mente para a contemplação da lei natural, que sobrevive às paixões humanas.
Poussin trata o tema com uma contenção clássica, evitando o patético barroco. A dor não é expressa por gritos, mas pela crueza do corpo transportado e pela solidão do caminho. Esta economia de meios reforça a dignidade do herói e a universalidade do seu martírio.
Finalmente, a obra marca o nascimento da paisagem ideal na pintura. Poussin não pinta o que vê, mas o que pensa, fazendo da pintura um "conceito visual". Esta abordagem influenciou duradouramente o academicismo francês e foi admirada por artistas desde David até Cézanne.
O primeiro segredo desta tela reside na sua dualidade técnica: existem duas versões autógrafas muito próximas, uma em Cardiff e outra em New Canaan. Décadas de debates dividiram os historiadores sobre qual seria a original, provando que Poussin trabalhava as suas composições com uma obsessão pela repetição.
Poussin inseriu uma subtil crítica política nos detalhes da cidade. Embora represente Atenas, os edifícios lembram estranhamente a Roma papal do século XVII onde vivia o artista. Elementos inspirados no Castel Sant'Angelo e no templo da Sibila em Tivoli são visíveis. Era uma forma de criticar as injustiças do seu próprio tempo.
A identidade do edifício mais imponente ao fundo é uma mensagem escondida. Trata-se de um templo dedicado à Fortuna. Colocar este templo acima do cortejo fúnebre sublinha a ironia do destino: o homem virtuoso está à mercê da fortuna caprichosa, um tema estoico central para o artista.
Um segredo reside no tratamento pigmentar da sombra. Para tornar o corpo de Fócio quase invisível, Poussin utilizou velaturas de terra de Siena muito finas que escureceram com o tempo. Originalmente o corpo era mais visível, mas este desaparecimento reforça hoje a ideia do banimento e do apagamento do herói.
A procissão religiosa visível ao longe é frequentemente ignorada. Contrasta com o cortejo fúnebre miserável no primeiro plano. Enquanto o corpo do justo é evacuado como lixo, a cidade continua os seus ritos hipócritas. Poussin denuncia aqui a desconexão entre religião de Estado e moralidade real.
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Nesta composição, que elemento arquitetónico específico Poussin utiliza para sublinhar a ironia trágica do destino de Fócio em relação à sua virtude estoica?
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