Barroco1634

Capricho com as ruínas do Fórum Romano

Claude Lorrain

O olhar do curador

"Este "capricho" atesta a mestria de Lorrain na arte da perspetiva atmosférica, transformando ruínas maciças em elementos de um cenário teatral onde a luz se torna o verdadeiro tema."

Uma síntese poética da Roma antiga onde Lorrain reinventa o Fórum não como um registo arqueológico, mas como uma visão pastoral e melancólica banhada por uma luz atemporal.

Análise
Esta pintura, realizada em 1634, é uma das primeiras grandes demonstrações do talento de Claude Gellée, dito o Lorrain, para a paisagem ideal. Embora os monumentos sejam identificáveis — reconhecem-se o Templo de Castor e Pólux, o Arco de Septímio Severo e o Coliseu ao fundo — o artista toma liberdades topográficas audaciosas. Não se trata de uma "veduta" exata, mas de uma reconstrução mental destinada a evocar a grandeza decadente de Roma. Lorrain desloca os edifícios para criar uma harmonia visual perfeita, típica da corrente clássica francesa da qual é o pilar em Roma. A análise aprofundada revela como Lorrain integra a vida quotidiana do século XVII no meio destes vestígios colossais. Personagens populares, pastores e viajantes movimentam-se ao pé das colunas coríntias, criando um contraste marcante entre a eternidade da pedra e a fugacidade da existência humana. Esta justaposição está no cerne do pensamento barroco: recorda ao espetador que mesmo os impérios mais poderosos acabam por voltar ao pó, ao mesmo tempo que celebra a persistência da natureza. A luz, elemento de assinatura do Lorrain, desempenha aqui um papel narrativo crucial. Ao contrário dos pintores da sua época que usavam uma iluminação frontal, Claude coloca frequentemente o seu sol ligeiramente acima do horizonte, inundando a cena com uma clareza dourada que unifica os diferentes planos. Este tratamento luminoso permite ligar o primeiro plano, muito detalhado e escuro, às distâncias azuladas e vaporosas. Foi esta invenção da "luz de prata" que influenciou gerações de paisagistas, de Turner a Corot. Historicamente, esta obra marca o momento em que a paisagem deixa de ser um simples cenário para se tornar um género autónomo de primeiro plano. Lorrain não se contenta em pintar ruínas; pinta o ar que circula entre elas. Cada folha de árvore, cada fragmento de capitel é banhado numa atmosfera palpável. Sente-se a influência dos seus numerosos estudos feitos ao ar livre na campanha romana, a "Campagna", que percorria incansavelmente para captar as nuances da aurora e do crepúsculo. Finalmente, a obra explora o mito da Idade de Ouro. Ao colocar pastores no Fórum, Lorrain transforma o centro político e jurídico da Antiguidade numa Arcádia moderna. Esta visão idealizada respondia à procura de uma clientela aristocrática internacional, ávida de possuir uma parte do sonho romano, purificado da sua sujidade contemporânea e transfigurado pela poesia do pincel.
O Segredo
Um dos segredos mais bem guardados desta obra reside no "Liber Veritatis". Claude Lorrain, vítima do seu sucesso, era tão frequentemente copiado que decidiu manter um registo desenhado de todas as suas pinturas para autenticar as suas criações. Esta tela está registada sob o número 1, o que prova a importância capital que o artista lhe conferia desde o início da sua carreira. É graças a este "livro da verdade" que os historiadores de arte puderam confirmar a autoria desta obra face às numerosas imitações da época. Um exame de raios X revelou que Claude modificou a posição de várias colunas durante a execução. Originalmente, a composição seguia mais de perto a realidade do terreno. O segredo da perfeição deste quadro reside nesta passagem do real para o ideal: o artista "esticou" voluntariamente o espaço entre as ruinas para deixar passar mais luz, uma manipulação arquitetónica indetetável a olho nu, mas essencial para o equilíbrio da tela. Outro detalhe escondido diz respeito aos pigmentos. Claude utilizava um azul ultramarino natural, extremamente caro, extraído do lápis-lazúli, não apenas para o céu, mas também para as sombras das ruínas. Esta escolha técnica audaz explica por que razão, quase quatro séculos depois, a pintura conserva esta profundidade cromática única e este cintilar cristalino que as cópias à base de pigmentos menos nobres nunca conseguiram igualar. A presença das personagens não é apenas decorativa. Pesquisas iconográficas sugerem que alguns grupos de figuras representam cenas bíblicas ou mitológicas disfarçadas. Aqui, alguns especialistas veem nos viajantes em primeiro plano uma alusão discreta à Fuga para o Egipto, reinterpretada num contexto profano. Lorrain baralhava frequentemente as pistas para satisfazer as exigências intelectuais dos seus encomendadores, mantendo a primazia da paisagem. O último segredo diz respeito à proveniência da obra. Embora esteja hoje no Louvre, viajou pelas maiores coleções europeias. Suspeitou-se, durante algum tempo, que tivesse sido encomendada por um cardeal influente da corte papal para servir de "janela virtual" sobre o Fórum a partir de um palácio que não tinha essa vista. Isto explica o formato imponente e a perspetiva calculada para ser vista de longe, criando uma ilusão de espaço suplementar numa galeria fechada.

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Qual grande inovação técnica, característica da "paisagem ideal" de Lorrain, é aqui utilizada para unificar a composição arquitetónica e o espaço infinito?

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Instituição

Musée du Louvre

Localização

Paris, França