Antiguidade-100

Vénus de Milo

Desconhecido

O olhar do curador

"A torção do busto (contrapposto), o drapeado que desliza sobre as ancas e o enigma dos braços desaparecidos."

O ícone absoluto da beleza clássica, misturando o ideal do século IV a.C. com a inovação helenística num sublime mármore de Paros.

Análise
A Vénus de Milo, descoberta em 1820 na ilha de Milos, é uma obra fundamental que encarna a transição entre o classicismo sereno e o helenismo atormentado. Embora se inspire nos modelos de Afrodite do século IV, nomeadamente os de Praxíteles, data na realidade do final da época helenística (c. 100 a.C.). Este período caracteriza-se por um regresso às formas clássicas, mas com uma nova sensualidade e dinamismo. O contexto histórico é o de uma Grécia sob dominação romana, que procura reinventar o seu passado glorioso satisfazendo ao mesmo tempo o gosto dos colecionadores pelo espetacular. Tecnicamente, a estátua é uma proeza de montagem. Ao contrário da crença popular, não foi esculpida num único bloco de mármore de Paros, mas composta por vários elementos esculpidos separadamente: o busto, as pernas, os braços e o pé esquerdo eram fixados por pinos de ferro. Este método permitia uma maior liberdade de movimento e uma gestão otimizada dos materiais preciosos. O tratamento da carne, quase flexível sob o olhar, contrasta violentamente com as dobras profundas e pesadas do drapeado que parece prestes a cair, criando uma tensão erótica e psicológica única. No plano mitológico, a obra representa Afrodite, a deusa do amor nascida da espuma. No entanto, a ausência de atributos torna a interpretação complexa: será Anfitrite, deusa do mar venerada em Milos, ou uma Vitória segurando um escudo? A psicologia da obra reside no seu olhar distante e no rosto impassível, que contrasta com a complexa torção do seu corpo (a "figura serpentinata"). Emana uma aura de majestade distante, uma divindade que se oferece ao olhar permanecendo inacessível no seu silêncio de pedra. O impacto da obra na história da arte é incalculável. À sua chegada ao Louvre, foi apresentada como uma obra-prima do classicismo grego para compensar a perda do Apolo de Belvedere (devolvido à Itália). Esta "invenção" de um ícone moldou a nossa perceção da beleza antiga. O equilíbrio entre a estrutura atlética e a suavidade das curvas femininas faz dela um tratado vivo sobre a harmonia dos contrários, uma meditação sobre a permanência do ideal através dos fragmentos da história.
O Segredo
O maior segredo da Vénus reside no enigma dos seus braços. Aquando da sua descoberta, foram encontrados nas proximidades fragmentos de braços e uma mão segurando uma maçã (a "maçã da discórdia" ligada ao julgamento de Páris). No entanto, os conservadores do século XIX optaram por não os fixar, temendo que pertencessem a uma restauração posterior de menor qualidade. Análises recentes sugerem que a deusa poderia efetivamente segurar uma maçã, ou talvez apoiar-se num pilar, ou mesmo fiar lã segundo algumas teorias iconoclastas. Outro mistério diz respeito à sua base. Parte da base, assinada por "Alexandros de Antioquia no Meandro", desapareceu misteriosamente das reservas do Louvre no século XIX. Porquê? Porque esta assinatura datava a obra da época helenística, enquanto as autoridades francesas da época queriam absolutamente que fosse obra de Praxíteles, um escultor clássico muito mais prestigiado. Esta "mentira científica" perdurou décadas para manter o prestígio da estátua como puro produto da idade de ouro grega. As análises científicas por scanner 3D revelaram que a estátua foi outrora ricamente adornada. Usava joias de metal — brincos, uma pulseira e um diadema — cujos orifícios de fixação ainda podem ser vistos no mármore. Mais surpreendente ainda, como a maioria das estátuas antigas, era provavelmente pintada com cores vivas, tornando o seu aspeto original muito mais realista e talvez menos "puro" do que o branco imaculado que admiramos hoje. Finalmente, a história da sua descoberta é digna de um romance de aventuras. Um camponês grego chamado Yorgos Kentrotas encontrou-a enquanto procurava pedras para construir um muro. A luta diplomática entre a França e a Turquia (que então ocupava a Grécia) pela aquisição do mármore foi feroz. Alguns afirmam que foi durante uma briga na praia de Milos, durante o transporte da estátua para o navio francês, que os braços se quebraram e se perderam para sempre nas águas.

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Instituição

Musée du Louvre

Localização

Paris, França