Antiguidade-190

Vitória de Samotrácia

Desconhecido

O olhar do curador

"A técnica de "panos molhados" que revela a anatomia divina, as poderosas asas abertas e a base de mármore cinzento de Lartos."

O auge da escultura helenística, capturando o momento fugaz em que a deusa Nice pousa na proa de um navio de guerra.

Análise
A Vitória de Samotrácia é o paroxismo do estilo helenístico, um período em que a arte grega abandona o equilíbrio clássico para abraçar o dinamismo e o pathos. Provavelmente criada para comemorar uma vitória naval dos Rodianos no início do século II a.C., foi erguida no Santuário dos Grandes Deuses em Samotrácia. Esta obra não representa apenas uma divindade; encarna o próprio movimento, a fusão entre ar, água e pedra. O contexto histórico é o de um Mediterrâneo dilacerado por lutas entre os reinos sucessores de Alexandre, o Grande. Tecnicamente, a virtuosidade do escultor é inigualável. O uso dos "panos molhados" permite sugerir a força do vento e a humidade da bruma marinha que cola o quíton ao corpo. Esta técnica cria um contraste fascinante entre a finura do tecido sobre o ventre e o turbilhão de dobras acumuladas entre as coxas. A textura do mármore de Paros para o corpo e do mármore de Lartos para o navio cria uma hierarquia visual e material, ancorando a figura celestial numa realidade tecnológica militar da época. No plano mitológico, Nice é a mensageira da Vitória, filha do Titã Palas e de Estige. Aqui, ela não é uma figura estática de triunfo, mas uma entidade em plena ação. Desce do Olimpo para pousar no navio vitorioso. A psicologia da obra reside na iminência e na instantaneidade: vemos o momento preciso em que os seus pés tocam o convés, enquanto as suas asas ainda estão infladas pelo vento. É uma celebração da audácia humana sob o favor divino. O impacto psicológico no espectador é reforçado pela monumentalidade e pela perda da cabeça e dos braços. Esta falta acentua a abstração do movimento e a força da silhueta. Não se observa um rosto, sente-se um impulso. O corpo é projetado para a frente, desafiando as leis da gravidade, criando uma tensão entre a massa da pedra e a leveza do voo. É uma obra que respira e situa o homem no centro de um drama cósmico.
O Segredo
Um dos segredos mais fascinantes reside na descoberta da mão direita da deusa em 1950. Esta mão revelou que a deusa provavelmente não segurava nenhum objeto, ao contrário das antigas reconstruções. O gesto era de saudação ou simples anúncio de presença. Esta mão está hoje exposta numa vitrine separada no Louvre. Análises científicas revelaram traços de pigmentos azuis nas asas, sugerindo que a obra original era polícroma. Além disso, o bloco de mármore do busto está unido ao resto por pinos de bronze para sustentar o peso das asas projetadas para trás. A proa do navio também apresentava detalhes finos que indicavam a classe do navio (uma trihemiolia rodiana). Outro mistério refere-se à construção: a estátua foi desenhada para ser vista de um ângulo específico (três quartos à esquerda). O lado direito está muito menos acabado que o esquerdo, provando que o escultor otimizou o trabalho segundo o ponto de vista do espectador. Finalmente, a localização original numa fonte criava a ilusão de que o navio estava realmente na água.

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Instituição

Musée du Louvre

Localização

Paris, França